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MythoCortex Mitologia grega

Pele de carneiro dourada, objetivo da expedição dos Argonautas

Velo de Ouro

δέρας χρυσόμαλλονdéras chrysómallon

  • δέρας χρυσόμαλλον déras chrysómallon — a pele de lã de ouro
  • Χρυσόμαλλος Chrysómallos — Crisómalo, nome do carneiro de onde vem o velo

O Velo de Ouro é o objeto que põe em movimento a primeira grande expedição do mito grego. Não tem poder algum: seu valor é político — quem o traz de volta recupera um trono usurpado.

O Velo de Ouro é a pele do carneiro alado Crisómalo, enviado por Hermes — ou por Nefele, mãe das crianças — para salvar os irmãos Frixo e Hele de um sacrifício. Chegado à Cólquida, Frixo sacrifica o animal e pendura o velo num bosque consagrado a Ares, onde um dragão insone passa a guardá-lo.

Gerações depois, o rei Pélias impõe a Jasão a tarefa de trazer o velo como condição para devolver o trono de Iolco. Nasce daí a expedição do navio Argo, com cerca de cinquenta heróis a bordo, entre eles Héracles e Orfeu.

Vale notar o que o objeto não faz: ele não confere poderes, não cura e não protege. Seu valor é inteiramente simbólico e político — é a prova de uma tarefa impossível cumprida.

Atributos e domínios

O velo funciona como título. Pélias o exige porque acredita que ninguém voltará vivo da Cólquida; ao ser trazido, cumpre-se a condição e a usurpação fica sem justificativa — razão pela qual o rei tenta descumprir o acordo e acaba morto por obra de Medeia.

A tradição o trata também como objeto sagrado: pendurado em bosque de Ares na ida, é depositado no templo de Zeus em Orcômeno no fim da história, segundo algumas fontes. Sai de um santuário e entra em outro.

Símbolos e representação

Na cerâmica grega, o velo aparece pendurado na árvore com o dragão enrolado no tronco, e Jasão estendendo a mão enquanto Medeia estende a taça com o narcótico. É a cena mais reproduzida do ciclo.

O carneiro Crisómalo foi identificado com a constelação de Áries, e a nave Argo com a antiga constelação Argo Navis — dividida em Carina, Puppis e Vela no século XVIII por ser considerada excessivamente grande.

Principais narrativas

Frixo, Hele e o carneiro

Frixo e Hele, filhos do rei Atamante, são ameaçados de sacrifício por intriga da madrasta Ino. Um carneiro de lã de ouro os resgata pelos ares. Durante a travessia, Hele cai no estreito que passará a se chamar Helesponto — "mar de Hele", o atual Dardanelos.

Frixo chega à Cólquida, é acolhido pelo rei Eetes, sacrifica o carneiro e consagra o velo no bosque de Ares. É a etiologia de um topônimo real e a explicação de por que o objeto está tão longe da Grécia.

As provas de Eetes

Eetes só concorda em entregar o velo se Jasão arar um campo com touros que exalam fogo, semear dentes de dragão e derrotar os guerreiros que brotam deles. Todas as provas são vencidas com instruções e unguentos de Medeia, filha do rei, apaixonada por obra de Afrodite.

Cumpridas as tarefas, o rei ainda assim se recusa a entregar o prêmio. Medeia conduz Jasão ao bosque, adormece o dragão com suas drogas e o herói retira o velo da árvore.

A fuga e o destino do velo

A fuga é sangrenta: Medeia mata o próprio irmão Apsirto para retardar a perseguição da frota da Cólquida. O Argo retorna à Grécia por uma rota que as fontes descrevem de maneiras incompatíveis — pelo Danúbio, pelo oceano circundante ou de volta pelo mesmo caminho.

Em Iolco, Medeia provoca a morte de Pélias, e o casal é expulso. O velo, conquistado a esse preço, não traz benefício a ninguém: Jasão perde o trono, perde Medeia e perde os filhos. É um dos casos em que a tradição grega sublinha que obter o objeto não resolve o problema.

Relações com outras figuras

  • JasãoHerói que comanda a expedição para obtê-lo e o conquista com o auxílio de Medeia.
  • HermesEnvia o carneiro alado que salva Frixo e Hele, origem do velo.
  • AresDivindade a quem o bosque da Cólquida é consagrado, onde o velo fica guardado.
  • AfroditeProvoca a paixão de Medeia, sem a qual a conquista do velo seria impossível.
  • HéraclesArgonauta que integra a expedição e a abandona no meio do percurso.

Variações do mito

As fontes antigas não contam uma única história. Abaixo, as versões mais bem documentadas, cada uma identificada pela tradição em que aparece — nenhuma delas é a versão oficial.

  • Apolônio de Rodes, Argonáuticas

    Fonte mais completa: descreve o bosque, o dragão, o narcótico de Medeia e o momento em que Jasão retira o velo. É épica helenística, com forte elaboração literária.

  • Píndaro, Pítica IV

    Versão anterior e mais concisa, de 462 a.C., que já pressupõe toda a história conhecida do público. Confirma que o ciclo dos Argonautas é bem mais antigo que Apolônio.

  • Explicações econômicas antigas

    Estrabão registra que a região do Cáucaso produzia ouro e que se usavam peles de carneiro para retê-lo na lavagem de areias auríferas — técnica real e atestada. Autores antigos e modernos propuseram que o mito conserva a memória dessa prática e do comércio de ouro no mar Negro.

Grécia e Roma: o que muda

Sem divindade romana correspondente

O velo não tem correspondente romano e aparece em latim como vellus aureum, de onde vem a forma portuguesa "velocino".

A recepção latina é ampla. A Argonáutica de Valério Flaco reconta a expedição inteira em hexâmetros latinos; Catulo abre o poema 64 com a partida da nau; Ovídio narra a conquista nas Metamorfoses VII e dá voz a Medeia na Heroide XII; Sêneca constrói a Medeia em torno das consequências.

O que os autores latinos acrescentam é uma leitura moral da viagem. Para Horácio, nas Odes I.3, e para o coro da Medeia de Sêneca, a Argo é a primeira transgressão dos limites postos aos homens: o mar era barreira e foi rompida, e todos os males posteriores decorrem disso. Nas fontes gregas a expedição é sobretudo façanha; em latim, torna-se advertência. A natureza do próprio objeto e o papel de Jasão e de Héracles na tripulação estão na seção de variações.

Leituras modernas

Adaptações contemporâneas

"Velocino de ouro" e "buscar o velo de ouro" entraram no vocabulário como expressões para objetivo cobiçado e difícil. A Ordem do Tosão de Ouro, fundada em 1430 na Borgonha e ainda existente na Espanha e na Áustria, é uma das ordens de cavalaria mais antigas da Europa e toma o nome diretamente do mito.

O filme Jasão e os Argonautas (1963) fixou na cultura popular a imagem dos guerreiros nascidos dos dentes de dragão como esqueletos animados — invenção cinematográfica, já que as fontes descrevem homens armados.

Fontes antigas

  • Argonáuticaslivros III e IVApolônio de Rodes — As provas de Eetes, o adormecimento do dragão e a retirada do velo.
  • Pítica IVPíndaro — Versão arcaica da expedição e da conquista do velo na Cólquida.
  • BibliotecaI, 9Apolodoro (Pseudo-Apolodoro) — História de Frixo e Hele, origem do velo e resumo da expedição do Argo.
  • GeografiaXI, 2Estrabão — Registro do ouro da Cólquida e do uso de peles na lavagem de areias auríferas.

Bibliografia de apoio

  • Early Greek MythTimothy Gantz — Levantamento das fontes anteriores a Apolônio e das variantes sobre a rota de retorno.
  • The Argonautica of Apollonius: Literary StudiesRichard Hunter — Análise literária do episódio da conquista e do papel de Medeia.