Divindade olímpica da guerra e do furor do combate
Ares
ἌρηςÁrēs
- Ἄρης βροτολοιγός Árēs brotoloigós — destruidor de mortais
- Ἄρης μιαιφόνος Árēs miaiphónos — manchado de sangue
- Ἄρης θοῦρος Árēs thoûros — impetuoso, que se lança
- Ἄρης Ἐνυάλιος Árēs Enyálios — o guerreiro, epíteto por vezes tratado como divindade à parte
Ares encarna o combate em seu aspecto mais bruto: o massacre, o pânico, o sangue derramado. As fontes gregas o admiram pouco e o mostram frequentemente derrotado — um deus necessário que a própria tradição prefere manter à distância.
Ares é o deus da guerra em seu aspecto material: o corpo a corpo, a carnificina, o pânico que desorganiza exércitos. Seus filhos com Afrodite são Deimos (terror) e Fobos (pavor), e sua irmã Éris é a Discórdia. A tradição grega não constrói em torno dele nenhuma ideia de glória militar: essa parte pertence a Atena.
O tratamento que as fontes lhe dão é notavelmente hostil. Na Ilíada, Zeus chama-o de o mais odioso dos deuses; ele é ferido por mortais, derrotado por Atena e humilhado publicamente. Ainda assim, recebia culto em várias cidades, sobretudo em Esparta e em Tebas, e nenhuma comunidade grega dispensava a força que ele representa.
Genealogia e origem
Ares é um dos poucos olímpicos filho de Zeus e Hera dentro do casamento, o que torna o desprezo paterno ainda mais notável. Hera o defende e o incita em vários passos da Ilíada, tratando-o como instrumento de seus próprios conflitos.
Sua descendência é coerente com seu domínio: além de Deimos e Fobos, é tido como pai das Amazonas em várias tradições, e de reis violentos como Diomedes da Trácia, dono das éguas que devoravam homens. A exceção é Harmonia, filha com Afrodite e esposa de Cadmo, fundadora da linhagem tebana — combinação significativa de guerra e concórdia.
Atributos e domínios
A guerra de Ares não tem plano nem finalidade. Ele muda de lado no meio da Ilíada, combate por gosto e é descrito como uma força que se abate sobre os dois exércitos. A língua grega usa seu nome como substantivo comum para designar o próprio combate, o que indica quão colado o deus está à coisa.
A oposição a Atena estrutura a maneira como os gregos pensavam a guerra. No canto XXI da Ilíada, ela o derruba com uma pedra e o chama de louco; no canto V, um mortal — Diomedes, assistido por Atena — chega a feri-lo. A mensagem é explícita: a força sem inteligência perde.
Símbolos e representação
Ares é representado como guerreiro armado, jovem ou barbado, em geral com lança e elmo, sem atributo que o distinga claramente de um hoplita comum. Essa indistinção é parte do problema iconográfico do deus: ele é a guerra, não um personagem com traços próprios.
O Areópago, colina de Ares em Atenas, era a sede do tribunal que julgava homicídios. A associação entre o deus e o julgamento do sangue derramado aparece nas Eumênides de Ésquilo, que faz do local o cenário do processo de Orestes.
Principais narrativas
Ferido em Troia
No canto V da Ilíada, Ares luta ao lado dos troianos e é ferido por Diomedes, com o apoio de Atena. Sobe ao Olimpo aos gritos e recebe de Zeus uma repreensão severa. No canto XXI, Atena o derruba com uma pedra e ele fica estendido sobre sete jeiras de terra.
Esses episódios não são acidentes de narrativa: Homero constrói sistematicamente a inferioridade de Ares diante de Atena, e é assim que a épica grega comunica sua posição sobre o valor relativo da força e do cálculo.
A prisão pelos Alóadas e a rede de Hefesto
Os gigantes Oto e Efialtes aprisionam Ares em uma jarra de bronze por treze meses, até que Hermes o liberta. Em outro episódio, narrado na Odisseia, Hefesto o captura com Afrodite sob uma rede invisível e o expõe ao riso dos demais deuses.
As duas histórias têm a mesma estrutura: o deus da força é neutralizado por engenho. Elas circulavam como material cômico, e sua existência mostra que a reserva grega quanto a Ares era deliberada e antiga.
O primeiro julgamento de homicídio
Ares mata Halirrótio, filho de Poseidon, que havia violentado sua filha Alcipe. Julgado pelos deuses na colina que passa a levar seu nome, é absolvido. Apolodoro e Pausânias transmitem a versão, que servia de mito de fundação para o tribunal do Areópago.
Relações com outras figuras
- AtenaAdversária que o derrota repetidamente; o par organiza a oposição grega entre furor e estratégia.
- AfroditeAmante e mãe de seus filhos Deimos, Fobos e Harmonia; o casal era cultuado junto em Tebas.
- HefestoIrmão e marido de Afrodite, que o captura em flagrante com a rede que forjou.
- HeraMãe que o defende e o incita ao combate quando isso serve a seus próprios objetivos.
- Guerra de TroiaConflito em que luta pelos troianos e é ferido por Diomedes e humilhado por Atena.
Variações do mito
As fontes antigas não contam uma única história. Abaixo, as versões mais bem documentadas, cada uma identificada pela tradição em que aparece — nenhuma delas é a versão oficial.
- Ilíada
Constrói a imagem hostil e duradoura do deus: brutal, inconstante e derrotável. É a fonte mais influente e, ao mesmo tempo, a menos representativa do culto real prestado a Ares.
- Cultos espartano e tebano
Esparta mantinha culto regular a Ares e a Enyálios, com sacrifícios antes de campanhas; Tebas reivindicava descendência dele através de Harmonia e da serpente que Cadmo matou. Nessas tradições ele é divindade respeitada, não figura ridícula.
- Enyálios como divindade distinta
Tabuinhas micênicas em linear B registram e-nu-wa-ri-jo e a-re separadamente, o que sugere que Enyálios pode ter sido um deus independente, absorvido depois como epíteto de Ares. A questão continua aberta.
Grécia e Roma: o que muda
Equivalência romana: Marte
O romano Marte tem estatura incomparavelmente maior: é pai de Rômulo e Remo, patrono do Estado e divindade central do calendário — março leva seu nome, e as campanhas militares começavam no mês consagrado a ele. Havia também uma faceta agrícola, ligada à proteção dos campos.
Essa reverência é o oposto do desconforto grego diante de Ares. Quando um texto latino trata de Marte com dignidade, não está corrigindo os gregos: está falando de outra divindade, dentro de outra religião.
Leituras modernas
Adaptações contemporâneas
Ares aparece com frequência em jogos, quadrinhos e filmes como vilão arquetípico ou como deus da guerra em sentido genérico — muitas vezes absorvendo características de Marte, mais prestigioso. A ambivalência grega, que o mantinha no panteão sem admirá-lo, quase nunca sobrevive a essas adaptações.
Fontes antigas
- IlíadaV, 846–909; XXI, 391–433Homero — Ares ferido por Diomedes, repreendido por Zeus e derrubado por Atena.
- OdisseiaVIII, 266–366Homero — Captura de Ares e Afrodite pela rede de Hefesto.
- Teogonia921–923, 933–937Hesíodo — Filiação a Zeus e Hera e nascimento de Deimos, Fobos e Harmonia.
- BibliotecaIII, 14; I, 7Apolodoro (Pseudo-Apolodoro) — Julgamento no Areópago e o aprisionamento pelos Alóadas.
- Descrição da GréciaI, 28; III, 19Pausânias — Origem do tribunal do Areópago e registro de cultos a Ares no Peloponeso.
Bibliografia de apoio
- Greek ReligionWalter Burkert — Situa Ares entre o culto efetivo e a má reputação literária, incluindo a questão de Enyálios.
- Early Greek MythTimothy Gantz — Reúne as variantes sobre filiação, Amazonas e o julgamento no Areópago.
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