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MythoCortex Mitologia grega

Herói de Ítaca, protagonista da Odisseia

Odisseu

ὈδυσσεύςOdysseús

  • πολύμητις polýmētis — de muitos recursos, de mente fértil
  • πολύτροπος polýtropos — de muitas voltas, versátil — primeira palavra usada para ele na Odisseia
  • πολύτλας polýtlas — o que muito suportou
  • Λαερτιάδης Laertiádēs — filho de Laerte

Odisseu é o herói que vence pensando. Não é o mais forte nem o mais rápido: é o que mente melhor, disfarça-se, calcula e sobrevive. A Odisseia trata menos de façanhas que de uma coisa só — voltar para casa e ser reconhecido.

Odisseu é rei de Ítaca, filho de Laerte e de Anticleia — e, pelo avô materno Autólico, descendente de Hermes, o que a Odisseia usa para explicar sua astúcia. Seu domínio é a μῆτις (mêtis): a inteligência prática, a mesma de Atena, que o protege do começo ao fim.

Na Guerra de Troia, é ele quem concebe o cavalo de madeira que decide o cerco. Depois, passa dez anos tentando voltar para casa, perseguido por Poseidon, cujo filho Polifemo ele cegou. Chega a Ítaca sozinho, disfarçado de mendigo, e precisa retomar o próprio palácio de cem pretendentes instalados nele.

Genealogia e origem

Seu avô materno Autólico era ladrão notável e filho de Hermes. A Odisseia conta que foi ele quem deu nome ao neto, e vários estudiosos ligam Odysseús ao verbo odýssomai, "odiar" ou "causar rancor" — o herói do ressentimento divino.

Penélope é a figura que a epopeia constrói como par exato dele: sustenta o palácio por vinte anos com estratagemas, entre eles a tela que desfaz à noite, e submete o marido reencontrado a um teste antes de aceitá-lo. Os dois são caracterizados pela mesma qualidade.

Tradições pós-homéricas dão a Odisseu um fim obscuro: Telégono, seu filho com Circe, o mataria sem o reconhecer, com uma lança de espinha de arraia — desfecho que cumpre a profecia de Tirésias sobre uma morte "vinda do mar".

Atributos e domínios

A mentira é uma competência positiva em Odisseu, não um defeito. Ele inventa biografias falsas com naturalidade, esconde a identidade por cantos inteiros e, ao chegar em casa, mente até para a própria esposa e para o pai. Atena o elogia por isso. Para a tradição grega, a dissimulação bem executada é um sinal de inteligência.

Sua outra marca é a capacidade de suportar. O epíteto polýtlas aparece repetidamente, e a cena em que ele se amarra ao mastro para ouvir as Sereias sem sucumbir resume seu método: conhecer o perigo, medi-lo e criar um dispositivo que permita atravessá-lo.

A Ilíada mostra um Odisseu menos simpático: negociador hábil, executor de missões noturnas, orador que controla a assembleia. A tragédia ateniense o trata com franca hostilidade, como manipulador cínico — sobretudo em Sófocles e Eurípides.

Símbolos e representação

Odisseu é representado barbado, muitas vezes com o gorro cônico de marinheiro, o pîlos. As cenas mais frequentes na cerâmica são a cegueira de Polifemo, o navio junto às Sereias e o reencontro com Penélope.

Dois objetos funcionam como provas de identidade no final do poema: o arco que só ele consegue armar, e o leito que ele mesmo entalhou a partir de uma oliveira enraizada no chão do quarto — segredo que apenas o casal conhecia.

Principais narrativas

O cavalo de madeira

Depois de dez anos de cerco, Odisseu propõe construir um grande cavalo de madeira, esconder nele um grupo de guerreiros e fingir a retirada da frota. Os troianos levam a estrutura para dentro dos muros, apesar dos avisos de Laocoonte e de Cassandra, e a cidade cai naquela noite.

O episódio não é narrado na Ilíada, que termina antes; aparece de forma resumida na Odisseia, no canto de Demódoco, e vinha dos poemas perdidos do ciclo troiano. A versão longa mais conhecida é latina, do canto II da Eneida.

Polifemo e o nome "Ninguém"

Preso na caverna do ciclope Polifemo, filho de Poseidon, Odisseu diz chamar-se Οὖτις (Oûtis), "Ninguém". Embriaga o gigante, cega-o com uma estaca em brasa e escapa amarrado sob o ventre das ovelhas. Quando o ciclope pede socorro, grita que "Ninguém" o feriu.

Já a salvo no mar, Odisseu comete seu único erro de cálculo grave: revela o nome verdadeiro. É isso que permite a Polifemo maldizê-lo e a Poseidon persegui-lo por dez anos. A epopeia é explícita — o que quase o destrói é a vaidade, não a ignorância.

Circe, os mortos e as Sereias

A feiticeira Circe transforma seus companheiros em porcos; Hermes o socorre com a erva moly. É ela quem o instrui a descer ao mundo dos mortos para consultar o adivinho Tirésias, onde ele encontra a mãe, Agamêmnon e Aquiles.

Depois vêm as Sereias, cujo canto ele decide ouvir amarrado ao mastro enquanto a tripulação tapa os ouvidos com cera; o estreito entre Cila e Caríbdis; e sete anos na ilha de Calipso, que lhe oferece a imortalidade e é recusada. A recusa é o núcleo ético do poema: ele prefere ser mortal e voltar para casa.

O retorno e a prova do arco

Em Ítaca, disfarçado de mendigo por Atena, Odisseu reconhece aliados, é reconhecido pela cicatriz por sua velha ama e suporta humilhações no próprio palácio. Penélope propõe aos pretendentes uma prova: armar o arco dele e atravessar doze machados alinhados.

Nenhum consegue. Odisseu arma o arco, cumpre a prova e mata os pretendentes com a ajuda de Telêmaco. Segue-se a execução das servas que colaboraram e uma ameaça de guerra civil, interrompida por Atena. O poema termina não na vitória militar, mas no reconhecimento mútuo entre marido e esposa.

Relações com outras figuras

  • AtenaProtetora constante; os dois compartilham a mêtis e ela o disfarça e orienta em Ítaca.
  • PoseidonAdversário que o persegue por dez anos depois da cegueira de seu filho Polifemo.
  • HermesAncestral por Autólico e auxiliar direto: entrega a erva moly e ordena que Calipso o liberte.
  • Guerra de TroiaConflito que ele encerra com o estratagema do cavalo de madeira.
  • AquilesCompanheiro em Troia com quem disputa as armas contra Ájax e que reencontra entre os mortos.

Variações do mito

As fontes antigas não contam uma única história. Abaixo, as versões mais bem documentadas, cada uma identificada pela tradição em que aparece — nenhuma delas é a versão oficial.

  • Homero, Odisseia

    Fonte central e a mais favorável ao herói: astúcia e resistência são virtudes, e o retorno é apresentado como conquista legítima. A estrutura em flashback — ele narra as próprias aventuras num banquete — significa que boa parte do relato passa pela voz de um mentiroso declarado.

  • Tragédia ateniense

    Em Ájax e Filoctetes, de Sófocles, e em Hécuba, de Eurípides, Odisseu aparece como político manipulador e cruel. A mesma astúcia que Homero louva é aqui tratada como falta de escrúpulo.

  • Ciclo épico e a morte por Telégono

    A Telegonia, poema perdido, narrava viagens posteriores e a morte de Odisseu pelas mãos do filho que teve com Circe. Diferentes localidades gregas reivindicavam seu túmulo e episódios finais próprios.

Grécia e Roma: o que muda

Equivalência romana: Ulisses (Ulixes)

O nome latino Ulixes — origem do português Ulisses — vem provavelmente de variantes dialetais gregas do nome. A tradição romana o trata com desconfiança: na Eneida, é o arquiteto da destruição de Troia e recebe adjetivos como dirus e saevus, cruel e funesto.

Isso tem razão política: Roma se dizia descendente dos troianos, por Eneias. O herói astuto dos gregos é, do ponto de vista romano, o inimigo que destruiu a cidade dos antepassados.

Leituras modernas

Adaptações contemporâneas

O Ulysses de James Joyce, de 1922, transpõe o retorno a Ítaca para um único dia em Dublin e é uma das obras mais influentes da literatura do século XX. Também na modernidade, a Odisseia deu nome comum a qualquer viagem longa e acidentada.

A leitura de Odisseu como primeiro herói "moderno" — individualista, curioso, racional — vem de Dante, que o condena no Inferno por buscar conhecimento além do permitido, e de Tennyson, que o celebra pelo mesmo motivo. Nenhuma das duas está em Homero, onde o herói quer apenas voltar para casa.

Fontes antigas

  • Odisseiacantos IX–XII, XIX, XXI–XXIIIHomero — Polifemo, Circe, o mundo dos mortos, as Sereias, a cicatriz, a prova do arco e o reconhecimento.
  • Ilíadacantos II, IX e XHomero — Odisseu como orador na assembleia, embaixador junto a Aquiles e autor de missão noturna.
  • Ájax; FiloctetesSófocles — Retrato hostil do herói como político calculista no teatro ateniense.
  • EpítomeVIIApolodoro (Pseudo-Apolodoro) — Resumo do retorno e das tradições pós-homéricas, incluindo a morte por Telégono.

Bibliografia de apoio

  • Les ruses de l’intelligence: la mètis des GrecsMarcel Detienne e Jean-Pierre Vernant — Análise da mêtis como forma de inteligência e do lugar de Odisseu nessa série.
  • The Ulysses ThemeW. B. Stanford — Estudo clássico sobre as transformações da figura do herói da Antiguidade à modernidade.
  • Early Greek MythTimothy Gantz — Reúne as variantes sobre a genealogia, o ciclo troiano e os episódios finais.